Sexta-feira, Janeiro 27

"Um Filme Português" (104')

de Levi Martins, Vitor Alves, Miguel Cipriano, Jorge Jácome, Vanessa Sousa Dias e Carlos Pereira

Cinemateca Portuguesa // 30 de Janeiro de 2012 // 21h30mn // Sala Dr. Félix Ribeiro


Um Filme Português é um documentário colectivo composto por seis segmentos de 17’ que integra entrevistados de várias gerações, de Paulo Rocha a João Salaviza, procurando reflectir sobre um país, e o seu lugar no mundo, através do cinema: quais são, hoje, as principais características do desenvolvimento de projectos para cinema em Portugal? O que pensam os realizadores, produtores, críticos cinematográficos e programadores sobre o cinema Português? Que conclusões tirar das suas opiniões, relatos de experiências e análises da situação contemporânea?

Este documentário é um dos conteúdos produzidos no âmbito do projecto de investigação “Principais tendências no cinema português contemporâneo” (“Main Trends in Portuguese Contemporary Cinema”), desenvolvido no Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC), sedeado na Escola Superior de Teatro e Cinema e na Universidade do Algarve, e apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Financiado pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual (via concurso ICA - Ensino Superior) e produzido em 2011, Um Filme Português estreou a 28 de Outubro de 2011, no IX Festival Internacional de Cinema - doclisboa 2011.

Ao longo de aproximadamente dois anos e meio de trabalho, uma equipa de investigadores permanentes e de convidados entrevistaram realizadores e produtores, portugueses ou trabalhando em Portugal, bem como representantes de exibidoras e de distribuidoras, com o objectivo de identificar padrões comuns no desenvolvimento de projectos cinematográficos – dessa fase de trabalho viria a nascer o dossier “Novas & Velhas Tendências no Cinema Português Contemporâneo”, que incluiu textos introdutórios, ensaios monográficos e conclusões relativas ao seu tema principal, actualmente disponível online (www.ciac.pt, http://biblio.estc.ipl.pt/ e http://www.rcaap.pt/) e com edição em papel prevista para 2012 (editora Gradiva).

Visite-nos em: http://www.facebook.com/umfilmeportugues


Sexta-feira, Janeiro 6

Da dificuldade de lutar contra as correntes


De início, Nekhliúdov lutava, mas lutar era demasiado difícil porque tudo o que ele, acreditando em si, achava mau era considerado bom por todos os que o rodeavam. Finalmente, Nekhliúdov cedeu, deixou de acreditar em si e passou a acreditar nos outros. Nos primeiros tempos, esta abdicação de si mesmo não era nada agradável para ele, mas este sentimento desagradável não durou muito, e não tardou a que Nekhliúdov, que na altura começou a fumar e a beber, deixasse de experimentar esse sentimento de desprazer e sentisse até um grande alívio.
Então, Nekhliúdov, com a sua natureza temperamental, entregou-se todo a esta vida nova, aprovada por todos os que o rodeavam e abafou em si a voz que lhe exigia outra coisa. Tudo isso começou depois de se ter mudado para Petersburgo e culminou com a sua entrada no serviço militar.
(...) mas, no que toca aos militares, eles acham que as coisas devem ser mesmo assim, vangloriando-se, orgulhando-se desta vida, principalmente em tempos de guerra, como aconteceu com Nekhliúdov, que entrou para o serviço militar quando a Rússia já declarara guerra à Turquia. «Estamos prontos a sacrificar a nossa vida na frente de combate, por isso uma vida despreocupada e divertida não só nos é perdoável como necessária. Por isso nos entregamos a ela.»
Assim pensava vagamente Nekhliúdov neste período da sua vida; e durante todo este período sentia o fascínio de ser livre de todos os impedimentos morais que se tinha colocado outrora, e encontrava-se num estado crónico de loucura egoísta.
Este era o seu estado quando, depois de um intervalo de três anos, passou pela casa das tias.


Excerto de Ressurreição. Lev Tólstoi.


Apontamento adicional
Fui, por pura coincidência, de uma acusação e julgamento por um crime não cometido... para outra acusação e julgamento por outro crime não cometido.

Mais apontamentos sobre "Os Irmãos Karamázov"


E sim, enganei-me em relação a Aleksei: não há prenúncio onde o vi (suspirei de alívio), e nenhum dos seus irmãos está ao nível da depravação do odioso pai; Ivan não escapa à sua consciência (que o leva à loucura, às alucinações); Mítia tem um fundo generoso e crença na redenção, apesar do seu carácter altamente inflamável.
Quando li a troca de correspondência entre Anaïs Nin e Henry Miller, Nin mencionava que uma das personagens defendia, a certa altura do Romance, a ideia de que todos nós queremos matar o nosso próprio pai: é Ivan que explode em pleno tribunal.


Está no seu perfeito juízo? escapou involuntariamente ao presidente.

Exactamente por isso, por estar no meu perfeito juízo... um juízo ignóbil, no mesmo juízo que vós todos, que todos esses... focinhos! virou-se de repente para o público. Mataram o pai, mas fingem-se assustados rangeu os dentes com desprezo raivoso. Requebram-se todos uns à frente dos outros. Mentirosos! Toda a gente deseja a morte do pai. Uma víbora devora outra víbora... Se não houvesse parricídio, andava toda a gente zangada e iam-se todos embora descontentes (...).



Excerto d' Os Irmãos Karamázov. Fiódor Dostoiévski

Smerdiakov, Bexiguinha e um perturbador raccord


Eu dantes tinha a ideia de refazer a vida em Moscovo com este dinheiro, ou, ainda melhor, no estrangeiro. Era o meu sonho, principalmente porque «tudo é permitido». É verdade o que o senhor me ensinou, e muita coisa me disse: se não houver Deus infinito, também não haverá virtude, qualquer virtude, e também não será necessária. Tudo isso é verdade. Cheguei a essa conclusão.

Chegaste lá pela tua própria cabeça? Ivan fez-lhe um sorriso torto.

Sob a sua orientação.



Excerto d' Os Irmãos Karamázov. Fiódor Dostoiévski.
Numa recente visita ao Museu Nacional de Arte Antiga (condensada e perto da hora de encerramento) ficámos deslumbrados com uma das dez obras de referência do MNAA, Salomé, de Lucas Cranach, uma das 12 telas do Apostolado de Francisco de Zurbarán (S. Paulo) e com o olhar perscrutador e o fundo negro, densamente líquido, de um Retrato de Homem atribuído a Antonis Moro.


Museu Nacional de Arte Antiga

Extinção

A avaliar pela minha incapacidade de adaptação a um mundo povoado de arrogância, a extinção deve estar próxima...

Sexta-feira, Novembro 25

There is no excellent beauty, that hath not some strangeness in the proportion.



Sir Francis Bacon

Domingo, Novembro 20



De facto, fala-se às vezes da crueldade «animalesca» do homem, mas isso é muito injusto e insultuoso para os animais: um animal nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente cruel. Um tigre apenas morde e rasga as carnes, é só isso que sabe fazer, não lhe passaria pela cabeça cravar as orelhas das pessoas com pregos durante toda a noite, mesmo que o pudesse fazer.

Excerto da Confissão de Ivan a Aleksei, mesmo antes do encontro com Smerdiakov...

Os Irmãos Karamázov. Fiódor Dostoiévski.

Quarta-feira, Novembro 9

Impressão minha ou prenúncio para os passos de Aleksei?

Quem mente a si mesmo e ouve as suas próprias mentiras chega a um ponto tal que já não distingue qualquer verdade em si nem à sua volta, deixando por isso de respeitar a si mesmo e aos outros. Ora, sem respeito por todos, o senhor deixa de amar e, para se divertir e distrair, sem amor, entrega-se às paixões e às volúpias grosseiras, atinge um estádio animalesco nos seus vícios, e tudo isso provém de estar a mentir permanentemente a si próprio e aos outros. Quem mente a si mesmo também será o primeiro a ofender-se. É que, às vezes, é muito agradável ficar ofendido, não é verdade?



Excerto de Os Irmãos Karamázov. Fiódor Dostoiévski.

Terça-feira, Novembro 8


o stárets deu um passo para Dmítri Fiódorovitch e, chegando-se bem junto dele, ajoelhou-se-lhe aos pés. Aliocha já pensava que ele tinha caído, sem forças, mas não era isso. Ajoelhado, o stárets dobrou-se até ao chão diante de Dmítri Fiódorovitch, numa reverência completa, nítida e consciente, chegando a tocar com a fronte no chão.


Excerto de Os Irmãos Karamázov (Vol. I). Fiódor Dostoiévski


E é então que algo começa a fumegar nas minhas mãos. Há uma linha de fogo que me turva a vista: leio e releio; pergunto-me por que motivo andaria eu a adiar a chegada a este 6º capítulo, precisamente aquele que me traria a paixão (o início da paixão) pelo universo dos Karamázov. Leio e releio, aturdida como as restantes personagens que testemunharam este gesto tão inesperado e descabido por parte do stárets... mas, de uma forma inequívoca, é aqui que rebenta o centro nevrálgico do romance. E é incrível a violência com que esta certeza me aborda, disseminando tudo o se passa "lá fora": assim ficamos na cela; assim ficamos impressionados com a estranheza do gesto, e assim somos (também) motivados a unir os significados dos gestos aos acontecimentos dos tempos de correm e àqueles que estão por vir.

Segunda-feira, Outubro 24

O amor é um tempo estranho





The Brown Bunny. Vincent Gallo

So I guess I'll be hunting high and low
high -
There's no end to the lenghts I'll go to
high and low
high -
Do you know what it means to love you?



Excerto de Hunting High And Low. a-ah.

Sexta-feira, Outubro 7

I can never say no to anyone but you*



I will never be clean again

I touched her eyes
Pressed my stained face
I will never be clean again





Excerto de The figurehead. The Cure.*