Ela de novo estrebuchou, como um peixe, fazendo ranger as abas da sela, libertou as patas dianteiras mas, sem força para levantar o traseiro, logo se extenuou e voltou a cair de lado. De rosto desfigurado de horror, pálido e com o maxilar trémulo, Vronski deu-lhe um pontapé no ventre e de novo começou a puxá-la pela rédea. Mas ela não se mexia, e enfiando o focinho no chão limitava-se a olhar o dono com o seu olhar eloquente.
— A-a-ah! — rugiu Vronski, levando as mãos à cabeça. — A-a-ah! O que foi que eu fiz? — gritou. — A corrida está perdida! E por culpa minha, vergonhosa, imperdoável! E esta infeliz, querida égua, destruída! A-a-ah!, que foi que eu fiz?
Algumas pessoas, o médico e o seu assistente, oficiais do regimento correram para ele. Para sua desgraça, sentiu que estava inteiro e incólume. A égua tinha fracturado a espinha e foi decidido abatê-la. Vronski não conseguia responder às perguntas, não conseguia falar com ninguém. Voltou-se e, sem apanhar o boné que lhe caíra da cabeça, afastou-se do hipódromo sem saber para onde. Sentia-se infeliz. Pela primeira vez na sua vida sentia a maior infelicidade, uma infelicidade irremediável e de que era ele o culpado.
Excerto de Anna Karénina. Lev Tolstói.