2) Um novo lugar no mundo para Nekhliúdov.
Qualquer pessoa, para desenvolver uma actividade, seja de que género for, precisa de considerar a sua actividade como importante e boa. Por isso, qualquer que seja a situação de uma pessoa, ela formará, obrigatoriamente, um ponto de vista sobre a vida humana em geral que a levará a considerar a sua actividade importante e boa. (...) As pessoas que, pelos seus destinos e pelos seus pecados e erros, caíram numa certa situação, por mais incorrecta que seja, formam geralmente para si mesmas uma noção de vida tal que lhes permite imaginar a sua situação como boa e respeitável. Para se consolidarem neste seu ponto de vista, tais pessoas, por instinto, aderem a um círculo humano em que se reconhece como correcta a noção que formaram da vida e do seu lugar nela.
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Se se colocasse o problema psicológico de como fazer com que os homens do nosso tempo, cristãos, humanos, simplesmente boa gente, comentem as infâmias mais pavorosas sem se sentirem culpados, a solução seria apenas uma: é preciso o que já existe, é preciso que esses homens sejam governadores, chefes de prisões, oficiais, polícias, isto é, que, em primeiro lugar, tenham a consciência de que existe um trabalho chamado o serviço público, em que é possível tratar as pessoas como objectos, sem uma atitude humana e fraternal para com elas; em segundo lugar, que esses funcionários estejam de tal forma comprometidos com o serviço público que a responsabilidade sobre as consequências dos seus actos não recaia em cima de nenhum deles pessoalmente. (...) O problema é que as pessoas pensam que há situações em que se pode tratar o próximo sem amor, mas tais situações não existem. (...) Basta permitires-te tratar as pessoas sem amor, como fizeste ontem com o teu cunhado, e deixará de haver limites para a crueldade e para a ferocidade em relação aos outros, como viste hoje, e será infinito o teu próprio sofrimento, como aprendeste no decurso de toda a tua vida.
Dois excertos de Ressurreição. Lev Tolstói.